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A segunda hipótese

Luis Fernando Verissimo

Já contei isso. Natal de mil novecentos e qualquer coisa. Foi no século vinte, tenho quase certeza. Haviam nos dito que o Papai Noel iria entregar nossos presentes em pessoa. E, perto da meia-noite, ele chegou. Barba branca, gorro, roupa vermelha com gola de lã, barrigona, botas, tudo. Grande emoção. Nem me lembro do que ele me trouxe. Lembro que os presentes de Natal e aniversário que mais me agradavam eram bola de futebol e revólver. Não havia melhor sensação no mundo, ou pelo menos no mundo que eu conhecia, do que segurar uma bola de couro número cinco com tento novinha entre as mãos e fazê-la quicar no chão. E cheiro da bola de couro novinha só era superado pelo cheiro de espoleta recém-detonada no revólver.

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Fui um competente jogador de futebol de calçada – onde a bola nova não era usada, tá doido – mas não tinha nenhum futuro no futebol. O prazer em empunhar um revólver de caubói e dar tiros de espoleta também não determinou muita coisa em minha vida: não virei pistoleiro nem polícia e muito menos caubói. Tive a minha fase militar, é verdade. Quando fomos para os Estados Unidos, eu com seis para sete anos, era o tempo da Segunda Guerra Mundial e, influenciado pelo clima da época, comecei a matar tantos alemães e japoneses nos meus brinquedos solitários que tiveram que me levar a um médico. Fui o único caso que eu conheço de um estressado de combate infantil. Até hoje desconfio que o meu pacifismo e horror as armas vem de uma incerteza sobre o que faria se um dia tivesse uma metralhadora de verdade nas mãos. Enfim, depois de tentar tantas outras coisas, minha verdadeira vocação: serial killer! E ficou o remorso. Quando cheguei ao Japão pela primeira vez foi com um certo temor que esperei o guarda da alfândega checar meu nome no computador. Talvez houvesse algum registro dos meus massacres imaginários.. Mas não era isso que eu queria contar de novo.

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O Papai Noel entregou os presentes e desapareceu na cozinha. Onde mais tarde eu entrei e vi, sentado, tomando uma cerveja, com o cinto e a túnica de Papai Noel abertos e sem a máscara e a barba branca – o Bataclã. Uma das grandes figuras da Porto Alegre daquele tempo. Era um negro alto que vivia de fazer ”reclames”, propaganda ao vivo de produtos e serviços pela cidade, e era célebre pela sua simpatia e tiradas filosóficas, e pela sua saúde. Até na velhice, Bataclã arrancava aplausos nos estádios de futebol onde corria várias vezes em volta do campo antes dos jogos com a desenvoltura de um menino. Atribuía sua boa forma à vida limpa e a dietas especiais. E ali estava ele na cozinha da nossa casa, tomando uma cerveja.

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Confesso que não sei qual foi a minha reação. Se fiquei decepcionado porque o Papai Noel não era o Papai Noel, era alguém disfarçado de Papai Noel, que portanto não existia. Ou maravilhado com a outra hipótese: o Papai Noel existia, e era o Bataclã. Imagino que eu não deva ter pensado muito na logística da segunda hipótese, naquele momento. O Bataclã seria o Papai Noel de todo o mundo, o famoso, o internacional, que só vivia em Porto Alegre disfarçado de Bataclã quando não era Natal e ele não precisava cumprir sua missão na Terra? Ou era o Papai Noel municipal, uma espécie de concessionário local? Gosto de pensar que a hipótese que escolhi no momento, ao contrário das bolas de futebol e dos revólveres, determinou o que eu seria um dia.

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Se conclui que o Papai Noel era apenas o Bataclã disfarçado, data daí o meu ceticismo e a relutância em aceitar qualquer tipo de papai noel ou similar e qualquer mito ou imposição. Se preferi prolongar a maravilha daquele descobrimento e acreditar que a verdadeira identidade do Bataclã era o Papai Noel, data daí esta certa predisposição para me deixar encantar, mesmo com mentiras, que no fundo é uma tentativa de continuar criança. A decisão foi naquele momento. Só não chegou ainda o dia de descobrir qual foi.


Domingo, 25 de dezembro de 2005.



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